IA na manufatura: a oportunidade do nearshoring inteligente
A América Latina tem diante de si uma oportunidade que não se repete com frequência. A reconfiguração das cadeias globais de valor — o chamado nearshoring — está aproximando a produção dos mercados, e a região aparece como um dos destinos naturais. A pergunta já não é se o investimento chegará, mas se a região estará pronta para capturá-lo.
E é aí que a IA na manufatura muda as regras. Embora os custos de mão de obra continuem relevantes, o nearshoring desta década também compete por produtividade, qualidade, resiliência, sustentabilidade e capacidade de resposta. Em todos esses aspectos, a inteligência artificial pode se tornar um diferencial estratégico.
A oportunidade e a lacuna
O potencial é significativo. Segundo estimativa divulgada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 2022, o nearshoring poderia gerar até US$78 bilhões anuais adicionais em exportações de bens e serviços para a América Latina e o Caribe, no curto e médio prazo. Mas essa janela convive com uma base industrial que, de acordo com a OCDE em seu Latin American Economic Outlook 2025, representa apenas 11% do PIB regional e permaneceu relativamente estagnada por duas décadas. A oportunidade existe; o músculo para aproveitá-la ainda precisa ser construído.
Onde entra a inteligência artificial
A IA é justamente esse músculo. Nas fábricas mais avançadas, os modelos preditivos ajudam a antecipar possíveis falhas de maquinário, a visão computacional facilita a detecção de defeitos durante o processo produtivo e alguns robôs colaborativos, integrados a sensores e modelos de aprendizado de máquina, podem adaptar seu desempenho a partir dos dados de operação. Como alerta o Fórum Econômico Mundial, o desafio não é apenas automatizar: é implantar a IA de forma que eleve a produtividade e, ao mesmo tempo, proteja e requalifique o emprego industrial.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) traz uma nuance decisiva para a região: menos da metade dos empregos latino-americanos seria altamente impactada pela IA, em boa parte pelo tamanho do setor informal, que supera 50% do emprego. A implicação estratégica é clara: os ganhos potenciais de produtividade podem se distribuir de maneira desigual se a adoção de IA não for acompanhada de formalização empresarial e trabalhista, formação de talento, conectividade, acesso à tecnologia e requalificação de capacidades.
A Colômbia e o debate do ANDICOM 2026
Na Colômbia, o estudo mais recente do CINTEL, o Centro de Inovação, Produtividade e Desenvolvimento Tecnológico, sobre transformação digital em grandes empresas confirma esse diagnóstico por outro ângulo: em média, as organizações colombianas se situam em um estágio “em desenvolvimento” — superaram a digitalização básica, mas ainda enfrentam dificuldades para converter a tecnologia em vantagem competitiva sustentável. O estudo identifica que, além das lacunas técnicas que persistem, existem barreiras organizacionais para transformar os investimentos em nuvem, dados e inteligência artificial em capacidades estratégicas e novos modelos de negócio. Essa é, justamente, a lacuna que o nearshoring exige fechar.
Essa tensão entre a oportunidade do nearshoring e a maturidade para capturá-la é justamente o debate que o ANDICOM 2026, o principal congresso de tecnologia e inteligência artificial da América Latina, vem impulsionar. A agenda acadêmica do congresso, já disponível, reflete essa mesma leitura: foi construída sobre o conhecimento do CINTEL a respeito da maturidade digital e da adoção de IA nas empresas colombianas. Sob a temática Unleashing the Power of AI, o congresso reunirá, de 1º a 4 de setembro de 2026, em Cartagena das Índias, líderes dos setores industrial, tecnológico e de política pública para analisar como transformar a IA em competitividade real para a região.
Sua organização já está construindo as capacidades para capturar essa oportunidade?
Convidamos você a conhecer a agenda acadêmica aqui.
Fontes
- BID – O nearshoring poderia somar US$78 bilhões às exportações da região
- OCDE – Latin American Economic Outlook 2025: transformação produtiva e nearshoring
- World Economic Forum – Protecting jobs and boosting productivity when deploying AI in manufacturing (dez. 2025)
- FMI – How Artificial Intelligence Can Boost Productivity in Latin America (2025)
- CINTEL – Visão 2026: a IA como capacidade estratégica nas empresas
- CINTEL – Desafios e Oportunidades da Transformação Digital nas Grandes Empresas 2025
- ANDICOM 2026 – Agenda Acadêmica